Reality Shows: Entrevista com Ale Rocha

Sou fã do Ale Rocha. Além de jornalista competente, escritor e crítico de televisão, criou o maior blog brasileiro independente sobre TV – o Poltrona – que está temporariamente fora do ar. Mas, claro, não fica parado nunca. É usuário ativo do Twitter, escreve semanalmente uma coluna sobre TV e fã de reality shows, participando ativamente da última edição de A Fazenda, pela Record, e do BBB11, pelo Yahoo!. E foi sobre esse assunto apaixonante em comum, e muito mais, que falamos na entrevista abaixo:

1) O BBB11 teve um dos finais mais surpreendentes da história do programa, do qual não se tinha certeza de quem seria o ganhador. Acredita que isso aconteceu por conta do elenco escolhido ou por uma mudança no posicionamento da direção, que influencia o público com a forma de mostrar cada participante?

Sempre há quem aponta a edição favorável a este ou àquele participante. Acompanhei o PPV e o programa da Globo. Em alguns momentos, a edição era favorável a um dos confinados. Contudo, não creio que, como um todo, algum participante tenha sido beneficiado ou prejudicado – especialmente os três finalistas. Daniel, Maria e Wesley fizeram por merecer.

2) Quais são os prós e os contras da vitória de Maria para as próximas edições do programa? Este resultado representa uma possibilidade de renovação para o BBB?

Finalmente acaba o tabu sobre a mulher bonita e gostosa. Maria vingou Priscila, Fani, Nathalia e tantas outras que brilharam, mas acabaram eliminadas, pois o público acreditava que elas mereciam a capa de uma revista masculina, não o prêmio. Não vejo nenhum contra na vitória de Maria, como não vejo em nenhum dos outros vencedores. Ainda mais atualmente. A cultura do “assunto mais importante de todos os tempos dos últimos 15 minutos” matou a repercussão pós-BBB. Maria não durou dois dias sequer na Globo. Quando esteve no Faustão, menos de uma semana após conquistar o prêmio, era um assunto datadíssimo, por incrível que pareça. O BBB tem impacto apenas sua exibição.

3) Esta edição foi jogada muito com o apoio da internet e teve como marca a diminuição na quantidade de votos por conta da mudança do sistema de votação – algo que não ficou bem explicado. Você acredita que esta tendência se manterá nos próximos anos?

É uma tendência. Claro que ela pode não se confirmar. De repente vem a 12ª edição com um elenco muito afiado e a audiência na TV aberta volta a crescer, o que resultará em um maior número de votos, em mais mobilização na internet etc. Porém, pela tendência, podemos esperar uma queda na audiência na TV aberta, mas maior interesse via TV paga (seja Multishow ou PPV) e pela internet (com muitos vídeos oferecidos gratuitamente pelo site oficial do programa). A audiência do BBB está em queda na TV aberta, mas registrou alta na TV paga e no PPV (seja pela TV, seja pela internet).

4) Como jornalista, blogueiro e comentarista de TV, você já deve ter recebido críticas de todos os jeitos? Sobre quais assuntos são hoje as mais positivas e quais as mais negativas?

Sim, levo pancada. Não tem um assunto que seja mais ou menos polêmico. O público se divide em torcidas cegas durante o programa. Se eu criticava Maurício, era elogiado pela torcida de Diana e repudiado pelos fãs do cantor. Se no dia seguinte falava mal de Diana, ia do Olimpo ao inferno. Não ligo muito para isso, nem vou dizer que assisto ao programa com isenção. Tenho minha formação, meu histórico. Como qualquer pessoa, não sou imune a julgar, nem a ser julgado moralmente. Porém, não torço. É um imperativo ético. Quando chegou na final, desejava o prêmio para Daniel ou Maria por mérito. Eles protagonizaram o BBB11. Dar o prêmio pro Wesley? Lamento, mas o coqueiro, que no final era palmeira, foi mais expressivo.

5) Mais do que relatar algo que os espectadores/internautas não viram, você dava sua opinião em sua coluna no Yahoo!, informando e também criticando participantes, comportamentos e decisões da direção do programa. De que forma você acha que contribui para a formação deste público?

Minhas críticas, muitas vezes, são guiadas pela análise do discurso. Levo para meus textos o que me incomoda não só na TV, mas fora dela. Não gosto de discurso destoante da prática, algo infelizmente comum. Todos estamos sujeitos a isso. No BBB, observar essa incoerência é um prato cheio. Não tem um confinado que deixe de meter os pés pelas mãos. Durante o programa, acho bacana destacar isso.

6) A nova edição de Ídolos acabou de começar, com uma nova formação de jurados – algo que também aconteceu no Americam Idol. Você acredita na fórmula do programa como atração? Por que os vencedores acabam não conseguindo um lugar ao sol?

Nunca fui fã do American Idol. Não é uma crítica ao programa, muito bem feito e eficaz ao que se propõe. Questão de gosto mesmo. Mesmo assim, acompanhei as duas edições do Ídolos no SBT e a primeira exibição pela Record. O programa tem avançado e a mudança nos jurados pode ser bem interessante. Rick Bonadio fez um ótimo trabalho no único reality show musical que entregou um sucesso ao público – a primeira edição do Popstars, exibido pelo SBT e pelo Disney Channel, que resultou no Rouge. Luiza Possi é jovem e carismática. É uma incógnita, mas pode render – apesar que não tinha qualquer restrição com Paula Lima. Rodrigo Faro foi um tremendo avanço diante de Beto Marden e Lígia Mendes e lembra um bocado o estilo de Ryan Seacrest, do American Idol. Ainda tenho forte restrição contra Marco Camargo. Nenhum crítica ao seu trabalho como produtor. Apenas creio que não funciona na TV. Se a Record conseguisse pescar o Miranda do SBT, apostaria com mais entusiasmo nesta nova edição do programa.

7) Ainda este ano está prevista mais uma edição de A Fazenda. Qual seu balanço das três temporadas do reality até agora (excentuando-se a performance do Britto Jr, claro)? Acha que se fosse jogado por ânonimos, como o BBB, o programa alcançaria o mesmo sucesso?

A quarta edição de A Fazenda deve estrear em julho, na verdade. Do ponto de vista técnico, o reality avançou. Porém, o público deixa a desejar ao votar. Nem vejo como uma questão de mudar a fórmula, colocando anônimos no programa. Na última edição, todos os confinados interessantes foram retirados na primeira semana. Na época, especulei julgamento moral sobre alguns participantes. Hoje, acredito que os “famosos” mais conhecidos acabam prejudicados, pois o público acredita que eles não precisam do prêmio. Bobagem. O público tem que parar de encarar reality show como Criança Esperança ou Teleton. Tem que observar quem merece. Quem sabe a vitória de Maria deixe este “legado”.

8 ) Percebi que algumas regras e condutas de A Fazenda acabaram influenciando as últimas edições do BBB. Você sentiu essa influência? De qual forma?

Creio que um está de olho no outro e vice-versa. Não só pelas edições nacionais, mas também no que já foi experimentado no exterior e já funcionou. Não vejo nada demais, sinceramente. Regras, provas, punições são interessantes, mas nada disso substitui uma boa escolha do elenco. Reality show é elenco, ainda mais os de confinamento.

9) Um outro reality que vem fazendo sucesso é o Troca de Família, que segue uma linha no estilo Esquadrão da Moda, no qual o foco é mais comportamental e menos de confinamento, com acompanhamento 24 horas por dia. Essas fórmulas, que exigem menos investimento, também tendem a se manter na TV?

Hoje tem reality show pra tudo e vai continuar assim. São mais baratos de serem produzidos do que uma novela, por exemplo. A TV norte-americana, quando enfrentou uma greve de roteiristas em 1988, deu origem a isso. Nesta época, as emissoras descobriram que era possível abrir mão da ficção e produzir programas baratos e atraentes para a audiência e anunciantes. Bastavam algumas câmeras, alguns anônimos dispostos a exibir sua intimidade e muita inserção publicitária.  O primeiro sucesso foi Cops (1989), atração que acompanhava operações policiais, e que hoje inspira programas como P24 (Band). Em 1992, surgiu o programa que é considerado o marco zero dos reality shows contemporâneos. Produzido pela MTV norte-americana, The Real World (Na Rea”, no Brasil) reuniu sob um mesmo teto um grupo de adultos recém-saídos da adolescência. As câmeras acompanhavam o dia-a-dia de decepções amorosas, dificuldades acadêmicas e profissionais, despertar da sexualidade, flerte com o vício em álcool e drogas e até a luta pela sobrevivência – passaram pela atração participantes que acabaram vencidos pela Aids, fibrose cística, bulimia e anorexia.

10) Quais outros realitys você gosta na TV, além dos que já citamos? (confesso que sou apaixonada pelo O Aprendiz – ou era, com o Justus) Há algum programa no qual você aposte que vai bombar (pode estar no ar ou ser uma atração ainda por estrear).

É tanta coisa que vou esquecer alguns, com certeza. Além do BBB, de A Fazenda, de Troca de Família e de Esquadrão da Moda, gosto muito de O Aprendiz, The Amazing Race e American Chopper.

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